terça-feira, dezembro 27, 2011

A violência obstétrica em pauta



Tudo começou neste post da Cláudia Rodrigues sobre violência obstétrica. Como a gente tinha participado da blogagem coletiva pela eliminação da violência contra as mulheres e eu enviei o post para o nosso grupo de discussão, onde a gente estava compartilhando nossos posts e achados. Qual não foi a surpresa quando o tópico ganhou mais de 90 respostas!
Discussão que, claro, enveredou pela seara parto normal x cesárea. E procedimentos. E o tratamento que a mulherada recebe na hora de parir. Coisa mais que séria no Brasil – porque, sim, nossos direitos são violados o tempo todo.
Tive orgulho, muito orgulho, da mulherada. Pelo alto nível da conversa. Pelas histórias bacanas de cada uma. Pela militância a favor de um mundo mais acolhedor para nós, fêmeas humanas. Como a gente ainda está em tempo de falar dos direitos da mulher, pedi licença a todas e publico aqui trechinhos do bate-papo.
DC (nome preservado para não causar constrangimentos pessoais)
Quando eu tinha 15 anos engravidei. O moleque, um babaca (descobri depois) não me disse que a camisinha estourou e eu, ingênua, inexperiente, não percebi. Ele nem falou nada. Eu poderia ter tomado pílula do dia seguinte… enfim. Ele disse que não assumiria nada, terminou comigo e eu fiquei nessa sozinha com medo de contar pros meus pais. Meu pai não sabe até hoje, acha que perdi a virgindade com 19 anos.
Os médicos diziam que por ser tão nova eu não poderia ter um parto normal. Meu sonho é ter um parto na água, mas com as complicações de uma gravidez na adolescência isso nunca seria possível. Sempre sonhei ser mãe e abortar não passou pela minha cabeça – o pai não queria o bebê, mas eu o amaria por nos dois. Era uma menina.
Com alguns meses de gestação, o pai (que a essa altura tinha começado a usar drogas, coisa que não fazia quando namorava comigo) me agrediu. E eu perdi o bebê.
Levada pro hospital, dando a “sorte” que meu pai viajava a trabalho na época, precisei passar por aquele processo horrível de curetagem que foi feito sem nenhum cuidado e ouvir de médicos e enfermeiras “ninguém mandou aprontar já com essa idade”.
Não foi só violência obstétrica, foi violência psicológica e falta de respeito com uma adolescente que acabou de passar um momento traumático. Nunca vou esquecer.
Faz dez anos, hoje em dia isso ficou pra trás – fora a dor de perder um filho que a gente nunca esquece. 
Mas acho que essa situação toda só mostra o despreparo médico em relação à gravidez na adolescência. A violência psicológica é maior ainda com quem ainda não tem um preparo emocional! Um absurdo. E digo que não mudou de dez anos pra cá: a irmã da minha amiga de 15 anos engravidou e foi tratada como lixo no hospital, desmaiou durante as contrações e a enfermeira falou ‘na hora de abrir as pernas você desmaiou? Não, né? Deveria estar brincando de boneca”
É horrível.
Barbara Maués
Conheço uma mulher que entrou em trabalho de parto e foi tão mal atendida no hospital que a filha dela acabou morrendo, porque ninguém se importou com o parto. Quando resolveram fazer uma cesariana de emergência, já era tarde demais… :(
Camilla Lopes
Acho um pouco rigoroso como se procede o tratamento na questão parto normal x cesariana. Eu optei por cesariana. Sou uma pessoa razoavelmente esclarecida e foi minha opção. Sempre procuro ler sobre esse assunto e o tom rigoroso do parto humanizado – não é regra, é apenas como vejo as coisas – me distancia dessa discussão. Às vezes, este discurso me parece que coloca a mãe como vítima – porque ela fez cesariana-  e ignora que ela também tem opções – me refiro a pessoas como eu. Cheguei a sentir as contrações, doeu muito e eu não quis ter normal iria ser um sofrimento que – na boa – eu não quis passar. Claro que: entendo que haja um filão para médicos e hospitais com a cesariana; mas não sei, sinceramente, se o caminho para o debate seria “violência obstétrica” eu perco a vontade de debater porque me sinto indo contra uma ideologia perfeita. Enfim, no dia que o discurso mudar, talvez eu escreva sobre esse assunto. :)
Também não concordo com a ditadura do riponguismo que diz que somos pessoas ruins se não formos vegetarianos, sustentáveis, usarmos bicicleta, fralda de pano e coletor menstrual, além de, claro, fazer parto natural sem intervenções. Mas é inegável que todas essas atitudes e movimentos são uma reação a crescente mercantilização que o sistema capitalista trata nosso corpo, principalmente o corpo feminino. 
Eu não acho certo essa coisa de: o militante é chato então a causa é chata também. Pô, minha empregada foi uma dessas que quando estava em trabalho de parto tomou um cala boca pois “não gritou assim na hora de fazer”. São mulheres sendo violadas e desrespeitadas no direito de escolher o que vão fazer com o seu corpo e com seus bebes durante o parto. 
80% das mulheres não podem optar. Escolher um parto cesáreo é uma opção válida. Mas infelizmente é MUITO mais fácil achar um profissional que faça um parto cesáreo eletivo do que um médico que faça um parto normal. 
Então a gente tem que pensar bem antes de achar que essa questão é sobre o “eu” e sim sobre a totalidade de mulheres que não tem nem o que escolher. 
Até onde eu sei, a hegemonia da cesárea no BR é na rede particular. Tanto que só agora que superou o número, porque o SUS começou a fazer cesárea com mais frequência. E aí eu queria falar algumas coisas:
(1) Cesárea é coisa de plano. Já parto na água, parto com bola, parto “humanizado” é coisa de médico particular. No SUS, tirando as casas de parto e um ou outro serviço “de referência”, é parto normal, no leito, gritando, sem anestesia, acompanhado do plantonista da vez. E tem muita mulher deixando de ser atendida (eu duvido que alguém aqui não conheça nenhuma que tenha ouvido um “na hora de fazer não gritou”, ou tenha sido menosprezada na hora do parto). Isso culmina no que aconteceu com a filha da diarista da Bárbara. Isso pra mim é violência obstétrica;

(2) Enquanto plano de saúde pagar 200 reais por parto, o médico vai preferir fazer cesárea. A hora que começarem a pagar por hora, de repente o cenário muda. Ou alguém conhece um obstetra humanizado que vai acompanhar seu parto natural em casa na banheira por doze horas pelo plano?

(3) PN está relacionado sim com laceração de períneo, prolapso de bexiga e incontinência urinária, principalmente da forma que ele é feito no Brasil. A cesárea, por sua vez, envolve toda a questão da cicatrização do abdômen. E aí sim, tomadas todas as precauções, eu acho que é importante a gente se informar e escolher. E confiar no médico (ou trocar se não confia, uai.)

(4) Eu não sei vocês, mas pra mim é diferente uma cesárea eletiva marcada no terceiro mês de gestação para cair no dia x de uma cesárea também eletiva que acontece quando a mulher já está em TP e o bebê está pronto para nascer.

(5) Se eu tivesse financiamento e estrutura, eu faria um mega estudo de corte acompanhando meninas brasileiras desde o nascimento até a menopausa, pra descobrir algumas associações entre parto e saúde da pelve e efeitos de médio e longo prazo. Mas né, não tenho (inclusive, não achei nenhum estudo desse tamanho na pubmed e uma revisão muito mais bem feita que a minha pesquisa porquinha nos últimos cinco minutos também não achou:http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16856054)

(6) Eu acho que no fim a gente sempre vai ficar no dilema entre o que é mais importante: eu escolher uma coisa que é “cientificamente” tida como melhor pra mim (o parto normal, no caso) ou escolher o que eu quero. E isso é vale pra cesárea, pra escolha de fumar tabaco, beber álcool, comer açúcar e tudo mais que a gente faz.

(7) Como diz a @ladyrasta, parto é meio, não é fim. Se por um lado é importante a gente pensar nas condições em que as mulheres do Brasil estão sendo tratadas, eu acho que essa coisa de ficar apontando dedo pra médico chamando de “cesarista” e pra mulher que escolhe (igual escolheria uma lipo ou uma cirurgia de correção de nariz) não vai levar a muita coisa, IMHO. O que a gente precisa é olhar a forma com que a saúde da mulher é atendida nesse SUS. E, se por um lado, isso passa na assistência ao parto, não pode parar por aí.
Quanto à violência obstetrícia, nem só nos hospitais públicos ela acontece. No Santa Catarina, na hora do preparo, a obstetriz me perguntou o nome do pai, e eu disse que era solteira. Ela disse: olha, se o pai não assumiu ainda, pode esquecer que não assume mais! Parece que uma mulher grávida deve ser castigada por ter feito sexo!
Acho que um ponto SUPER importante é a gente deixar a mãe escolher. Porque é meu útero, minha vagina, meu filho. Não quero ninguém decidindo por mim, nem médico, nem SUS, nem ONG, nem ninguém. Só eu sei o tamanho da dor que eu vou sentir. Eu quero parto normal, com anestesia. Se na hora H doer pra cacete, ou se a criança estiver em risco, ou se eu não aguentar, quero poder falar pro meu médico que quero cesárea. 
Óbvio que entendo que um parto normal é o mais saudável pro bebê e pra mãe, quando se trata de uma gravidez normal e saudável. Mas cada uma sabe onde e quanto lhe dói. Já ouvi relato de parto normal que é tranquilo (tipo dói pacas, mas é suportável), já ouvi mulher dizendo “dei à luz sem anestesia e foi lindo” e já ouvi mulher falar que dói demais e não aguentou. Cada um com seu cada um, eu acho. 
Eu estou me devendo escrever um post sobre isso há muito tempo no blog da Carmen. Meus dois partos foram naturais, pelo SUS. O do Gabriel foi no Rio e eu levei muito tempo para entender que o que fizeram comigo não era “normal”. O marido não podia entrar, então encarei tudo sozinha. As enfermeiras foram grossas, se recusaram a me atender quando eu senti dor, fizeram uma tricotomia de qualquer jeito com a mão pesada pra me “punir” por eu não ter me raspado em casa, não me disseram nada, e o médico ainda me menosprezou na hora do parto dizendo com desprezo “totalmente despreparada” porque como me anestesiaram eu não conseguia sentir as contrações direito. Ah, e ele fez uma episiotomia sem me perguntar nada, eu só descobri quando estava sendo costurada. E eu ouvi o famoso “ano que vem vocês estão aqui de volta” – só que jurei que nunca ia voltar. Eu saí de lá achando que fiz tudo errado, foi a pior dor que senti na minha vida e fiquei feliz de não ter matado meu filho e chorei de culpa. Sério.

13 anos depois, eu tive a Carmen pelo SUS, em Curitiba. A enfermeira que fez meu parto era doula. Meu marido estava do meu lado. De alguma forma na hora do vamos ver eu não me adaptei a posição nenhuma e acabei tendo a Carmen na banheira, sem anestesia nem episiotomia e doeu MENOS e foi muito melhor do que o parto do Gabriel e eu senti cada contração e a hora certa de fazer força. Eu estava no controle, sendo apoiada, orientada e amada. Eu saí de lá me sentindo tão feliz e aliviada… Aí eu entendi o quanto o parto anterior tinha sido traumatizante. A melhor coisa que eu fiz na vida foi ter a Carmen em Curitiba. Mesmo.
Alessandra Luvisotto
Quanto mais vocês discutem mais eu me afirmo na decisão de não ser mãe… na real, não posso, se fosse tentar seria uma gravidez de altíssimo risco e tal, mas há tempos não me vejo mãe e agora menos ainda.
Estou esperando meu primeiro filho, portanto não sei o que são as dores do parto, mas quero ter um parto normal com analgesia. Isso já está conversado com minha GO e minha doula. O que me assusta é ter que brigar pelo parto normal, porque os médicos não querem fazer, eles preferem cesária.

O post não é sobre o tipo de parto, mas a violência que acontece, em qualquer um deles. Esta semana ouvi dois relatos de mulheres “violentadas” durante seus partos. Uma com uma cesárea não necessária (mas era 31/12) e outra com fórceps e até a frase: “na hora de fazer não gritou”. Para mim os dois relatos são igualmente
horríveis, assustadores. Como nós mulheres somos tratadas assim em 2011? E como não se fala a respeito?

Acho que é este o ponto da discussão, porque você pode ser a favor ou contra a cesárea, ou ao parto natural, mas você não pode ser indiferente à violência.
Eu não ia me meter na conversa, me dá preguiça absurda, mas só entro pra dizer que te entendo Camila. Que é difícil mesmo quando o povo diz que quem fez cesárea não é mãe de verdade… Cansa.
E aí, porque me cansa, não abraço a causa, que pode ter outra lógica, que pode defender coisas em que eu até acredito – o direito da mulher de não sofrer no momento em que está dando a luz – mas como já me colocaram em outra categoria porque não tive parto normal eu desisto, e olha que o meu nem foi escolha…
Em tempo, pra deixar muito claro: não sou mãe, mas já pari muito ouriço nessa vida que recebi. E aprendi que dores podem virar prazeres – difícil mesmo é saber fazer a alquimia.
Não acho que o ativismo precise ser tão radical, não. Pelo contrário, acho que faz perder muitas pessoas que poderia trazer para a causa, por bobagem. 

Uma mulher faz cesárea e conclui-se que ela foi vítima de um sistema, que não pôde escolher, e ela é cobrada. Desculpem, mas isso não é mal entendido, nem interpretação errada. Isso é uma perseguição sim. 

Já disse que eu entendo e apoio a causa, mas detesto quando se tratam as pessoas como se elas não pudessem pensar por conta própria em nome de uma causa. As campanhas generalizam e a gente fica na dúvida. Por exemplo, a que incentiva a mulherada a fazer exame das mamas dizendo que não dói. Pode parar: doi, sim, para a grande maioria. 
Cria-se uma cortina de fumaça e isso é contraproducente justamente para as pessoas que estão tentando se informar melhor.
Já fui tratada por ativistas de parto natural, deixa eu ver… SEMPRE com preconceito por ter feito cesárea. Sou a favor (parto natural/normal, ou seja lá qual for o nome – sei que existem diferenças e não vou entrar no quesito agora), não rolou e mesmo assim o povo consegue me deixar pequenininha quando o assunto é este.
Não importa o pq não rolou – importa é que aos olhos de quem levanta esta bandeira ‘sou menos’.
Francisca Vargas (BSB), @SenhoraF
Eu preciso de um pouco mais de tempo para digerir e elaborar algumas informações, ainda mais estando no olho do furacão (estou na quadragésima semana de gestação do Yago). Segue o link do post que escrevi sobre o assunto:
http://senhoraf.wordpress.com/2011/12/02/pelo-direito-de-escolher/
Pra mim, a campanha “pelo parto natural” é um detalhe irrelevante. Existem muitos outros problemas enraizados SÉRIOS que efetivamente farão diferença entre a vida e a morte da mãe pra serem tratados. Se é pra comprar alguma briga, eu compro essa: pela dignidade em todo o processo e pela vida.

Para navegar:
Dois relatórios em português – o primeiro muito bacana, que mostra que causas de complicações além da falta de informação e da simples relação cesárea x parto normal, mas a falta de um pré-natal adequado e os altos índices de morte por aborto, e também a relação de mortes com a situação socioeconômica. 
E aí, formou opinião? Aproveite para deixar um comentário!
foto: Cesar Augusto Serna Sz, CC-BY-NC-ND

Postado originalmente em Luluzinhas Camp

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